quarta-feira, 4 de abril de 2007


"A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido, e isso machuca." Clarisse Lispector. Analisemos essa frase... Filho ainda não nascido???? Como assim???? Longe de mim querer discordar da eterna Clarisse, mas como um filho ainda não nascido pode gerar tantos outros filhos???? Talvez não-nascido porque seja silencioso, talvez por estar envolto em camadas de névoa que nos remetem a mundos longínquos e ilusórios!!! Mundos distantes que nos dão as falsas verdades de que compomos nosso ser, de que nos tornamos seguros de nós. Sim porque é muito mais fácil fingir a não existência de algo que nos incomoda do que ter de lidar com ela... Mas se a esperança não nasceu, o que explica o fato de uma senhora que mora no alto da favela saber que seu dia será igual a todos e que ela terá de trabalhar o dia todo como uma escrava, pra no final dele receber uma remuneração fingida (ilusão de quem acha que ta recebendo e de quem acha que ta pagando) e apesar de saber de tudo isso ela, ainda, se levantar todos os dias e continuar lutando???? O que faz alguém que sofreu um tiro de bala perdida e está paraplégico sair de sua casa atravessando todos os obstáculos de uma cidade que não está apta a receber pessoas com necessidades especiais, mas ainda assim ela continuar saindo tentando recuperar seus movimentos???? E outras tantas histórias de sobrevivência...

Quanto ao prometido, bom, aí é o seguinte: a esperança não é uma promessa, promessa é o que é feito em período eleitoral... A esperança é o sentimento que nos tange à mudança, é o que move jovens às ruas, idosos às portas de palácios, crianças aos pais... é o que nos levanta pela manhã, o que nos faz reciclar uma garrafa PETI mesmo sabendo que toneladas de outras estão sendo jogadas em rios, é o que nos faz acreditar que pode ser diferente, que nós podemos mudar e confiar na mudança dos outros... é o que nos torna crentes na humanidade e o que nos faz ser quem somos!!!!! É o que tentamos ensinar a nossos filhos, é... é... tudo isso e muito mais, é ... o elo que nos mantém vivos em sociedade!!!!

E se machuca!?! Bom, a mim não machuca... Porque sei que a mudança não parte da espera... não é esse o significado da palavra esperança, eu termino com uma frase que resume em si todo o significado de meus pensamentos: “...não é, porém a esperança o ato de cruzar os braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e se luto com esperança, espero.” Assim Paulo Freire (incrível Paulo Freire) faz menção à esperança... e se eu sou utópica em acreditar nela, eu prefiro morrer tentando a permitir que meu mundo se já como o mundo existente. A primeira frase de Clarisse não foi muito feliz, mas ela compensa com essa: "Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero é uma verdade inventada". Parece até que Chico tava conversando com ela quando pensou que podia morrer de seu próprio veneno. É bem por aí... enquanto isso não vô me abater com a fumaça de óleo diesel e continuo caminhando e cantando e de preferência não seguindo a canção... Nunca fui boa em ritmo mesmo, vô cantando à minha maneira... No meu tempo... inventando a minha canção!!!!!

segunda-feira, 2 de abril de 2007


O dicionário também prega peças

Insiste-se em dizer que o país apresenta um quadro de corrupção crescente, isso é inverossímil e a seguir a explicação.
De acordo com a quarta edição do Minidicionário Aurélio, de Setembro de 2000, corrupção significa ato ou efeito de corromper, decompor. No mesmo dicionário consta que corromper é o mesmo que deteriorar, decompor, alterar. Isso não ocorre ou jamais ocorreu no Brasil, não houve alterações no nosso sistema, a máquina expropriadora, o Estado, é a mesma, a única mudança foi no sentido dos interesses mandantes. Passamos de uma aristocracia agrária da cana para a do café, e desta para uma burguesia industrial que ainda hoje detém nas mãos a direção do país.
Ainda em concordância com o Aurélio, nota-se que decompor significa separar os elementos componentes. Esta é uma prática tão comum no Brasil quanto achar dinheiro e procurar o dono. Os políticos não se separam, muito pelo contrário, eles se unem para “dividir o Brasil em mil brasis e melhor assaltá-lo de ponta à ponta”, como dizia Zé Ramalho. A unidade entre eles chega a ser tocante, percebe-se que quando um deles é descoberto, uma gama de outros “companheiros” cai junta, unidos na alegria e na tristeza, na eleição e na cassação.
Fica claro, portanto, que o termo corrupção é errôneo para o caso brasileiro. Poderíamos utilizar o termo continuação que resume em seu significado a atual prática política. Continuação dos privilégios, continuação das desigualdades, continuação da exploração do trabalhador, enfim, a continuação de pessoas que, como muitas outras, se recusam a tentar mudar esta situação.